Monday, October 05, 2009

Possibilidades ensolaradas

As horas se pregam às bordas da minha rotina, pesam e não deixam andar. Arrasto-me na esperança de uma ligação ao fim do dia. Um sorriso imaginário em uma voz eletrônica.

Durmo e acordo para um dia cinzento de possibilidades ensolaradas. E tudo recomeça e acaba em cada minuto, esperando por palavras trocadas.

A ansiedade comichando nos dedos, uma vontade de sorrir na vaga sensação de que a felicidade pode agora ser minha companheira.

Monday, May 19, 2008

Mapa invisível

Um mapa foi desenhado com a ponta do dedo e minhas costas, e em cada ponto de nossa viagem imaginária uma promessa foi feita e toda a estrada que vinha atrás cada vez que recebia um beijo de mentiras.

Colinas de lençóis pareciam nos distanciar e distância maior estava em seus dedos e em tudo que sentia. Acordei sozinho. Um cheiro de desesperança. Um olhar direcionado ao espelho e cuido que o vejo atrás de mim. Um cheiro, seu cheiro e o toque nos pontos que sumiram, um caminho que nunca percorremos juntos, cada um submerso em um piscar de olhos.

A porta não bateu, tudo tão silencioso. E nunca chegamos muito longe além de minhas costas nuas. Deito novamente. Falta algo, algo quando me escondo e sepulto minha cabeça e pensamento no travesseiro. Falta a dor da partida. Nós nunca chegamos a lugar algum.

Thursday, May 15, 2008

Paixão sorrateira

Sempre tive um interesse insólito pela escuridão. Esse interesse brota internamente e vai cravando seus tentáculos no que restou de luz aqui dentro. Durmo em trevas e maior parte dos meus sonhos acontecem sem qualquer tipo de luminosidade. É um casulo fortemente selado. Durmo e amadureço meus pensamentos e desejos mais obscuros. Quando acordarem destruirão tudo pelo caminho e tragarei felicidades fugazes como as chamas que não sobrevivem ao meu toque.

Há um certo prazer em fazer algo que é considerado errado. Viver à margem na verdade é viver no centro. É chamar atenção por se um mau exemplo. Um espelho quebrado em que só os mais fracos tem coragem de se espelhar com afinco. E quando ando deixo minha marca e cada dia de sono cresço dentro da minha bolha e tudo continua escuro e escuro. Assim é mais fácil dormir.

Mas um dia resolvo tocar a massa escura ao meu redor e algo quebra. O toque veio de fora e um buraco se abre. Uma pequena fresta e a luz erradia como tudo aquilo que nunca tive direito de chamar de meu. Um mundo que não me pertence. E tudo explode.

Acordo sem bolhas e minha paixão pela escuridão encolhe, mas ainda vive ali. Sei que fala baixinho quando me banho da luz que está por todos os lados. Mas ela ainda está ali. E o que resta de mim além dessa dualidade pungente? Vivo na luz. Mas continuo apaixonado por tudo que se esconde aqui.

Saturday, March 15, 2008

Legados invisíveis

Era um legado invisível o dessas duas mulheres. Passaram pela catraca com duas sacolas cheias, mulheres negras e fortes. Segura direito, minha filha. Não pode deixar cair. Olhar e gestos diligentes, cuidado e precisão. A mãe seguindo a filha, cada uma com seu fardo.

Pararam e descansaram em um ônibus cheio. Calada, a filha transitava entre olhar da mãe e a sacola parada ao chão. A mãe limpava o suor da testa, olhava para fora. Pensava. Com certeza pensava em como tudo estava pesado. E o sol continuava queimando.

É o próximo ponto, filha. Desceram as escadas com cuidado, pararam na calçada. Deixa que eu levo esse, filha, que ta mais pesado. A filha já carregava uma barriga em seus 6 meses. A barriga da mãe também começava a aparecer. O sol queimava esse legado invisível. Essa herança diária.

Wednesday, February 27, 2008

Vivendo reflexos

Toda minha vida foi feita de pequenos passos. Às vezes premeditados, muitas vezes caoticamente arranjados, mas todos auto-destrutivos.

Eu nunca consegui reconhecer nenhuma das coisas boas que aconteceram na minha vida. Nenhuma mesmo. Eu fui me desviando de tudo que poderia ser benéfico e acabei me jogando em tudo que poderia me fazer sentir o pior homem nascido até então. Porque o dia seguinte sempre reservava algo pior.

Todos os meus atos um dia serão interpretados das formas mais diversas e darei risada ao constatar que só eu saberei a verdadeira dimensão de cada um deles. E ainda assim calarei.

Todos os meus passos foram dados em direção à auto-destruição. Alguns foram dados em regresso, tentando voltar para épocas mais saudosas, mas sempre ilusórias. Nunca houve época tão boa quanto... O sono.

Eu sempre achei que a única coisa que eu sei fazer bem é escrever. Mas nem disso tenho mais certeza agora que vejo que não consigo me descrever com palavras. Sei apenas que atraio destruição.

"As pessoas têm o hábito de me olhar sempre como se eu fosse uma espécie de espelho, e não uma pessoa. Elas não me vêem. Mas vêem sua própria obscenidade em mim. Depois, colocam uma máscara e me tratam como mulher obscena".

Marilyn Monroe

Acho que vivo como espelho. Sempre reflexo.

Bons escritores, boas descrições e discrições

Todo bom escritor tem alguma consciência de sua habilidade. Olhar para o invisível e saber juntar palavras que contem tudo que nos passa despercebido não é fácil.

Mas todo bom escritor também é arrogante, porque olhar o invisível não significa enxergá-lo de todas as formas possíveis. Muitos escritores se enganam e se perdem em suas visões egocêntricas.

Todos os dias, podemos virar personagens das histórias desses exímios escritores. Nem sempre, porém, nossa imagem será refletida exatamente como a vemos diariamente em um espelho ordinário. Muita verdade em relatos desse tipo, mas tudo muito parcial.

Porque talvez a única forma de descrever alguém em toda sua plenitude seria dando a ela uma caneta e papel. Mas nem todos nós somos bons escritores, não é mesmo? E também por isso não podemos criticar um autor que o tenta fazer, nos descrever. Mesmo que não completamente, sempre há um fundo de verdade nas palavras que lemos de nós mesmos. E geralmente são essas palavras são as que mais doem. E são exatamente essas palavras que nos recusamos a escrever.

Thursday, January 31, 2008

Nada de intimidades com a porta aberta

A vida tem muitos mistérios. Mas talvez o maior de todos eles seja o ser humano... E os seus próprios mistérios. Íntimos segredos. Medos íntimos.

Andar na rua, em um dia qualquer, pode se mostrar um verdadeiro exercício de criatividade. Na divagação de cada passo, no olhar trocado sem querer com alguém que nos passa sem nos tocar. Um sorriso que não se sabe o significado, lágrimas que escondem dores tão distantes. O ser humano é um grande mistério.

Imaginar o que cada um deles vive. Se vivem algo diferente do que vivemos. Se no final somos irmãos de vivências, ou estamos separados eternamente por segredos impossíveis de revelar.

Porque o mais cruel de tudo, de saber que os seres humanos são criaturas misteriosas, é saber que mesmo com uma troca de nomes, um aperto veemente de mãos, um abraço ou até um tórrido beijo de despedida, o ser humano sempre guardará alguns segredos.

Intimidade não implica verdade, não é mesmo?

Ele perguntou como estava.
Ele respondeu que estava bem.
Mas nada estava bem.
Ele perguntou quando poderiam se ver novamente.
Ele disse que deveriam combinar para algum dia nessa semana.
Mas ele sabia que nunca mais se veriam.
Ele criou esperanças.
Ele apenas fechou mais uma porta na esperança de outras ainda existissem para serem abertas.

Tuesday, January 29, 2008

Ninguém mora aqui

Deixo bilhetes de suicídio aos poucos. Ninguém realmente percebe. Mas eles estão ali. Fragmentos meus que vou deixando meticulosamente mesmo parecendo muito despretensioso. As palavras não são pronunciadas. Se o fizesse, pediriam para que eu ficasse. E nem ao certo sei quem pediria. Vou me deixando aos poucos como pele morta, arrancada com as unhas mão feitas, grandes, dedos habilidosos.

Os olhares que deixo de dar ao mundo são porque já me cansei de enxergar através. Como se tudo fosse fantasmas como eu. Durmo mais. E sempre quando acordo penso em formas de dormir. Os passos se tornam longos e as respirações mais planejadas porque não quero deixar tudo aqui com um soluço, com um espirro.

Vou me afastando e inventando desculpas para tocar os outros um pouco mais. Não falo nada, porém. Não quero mais ficar. Devo partir, o tempo não me quer mais aqui. E o drama me sobrepuja, e afundo, e olho para cima e apenas vejo bolhas. Meus dedos se esticam para tocar o fundo. Beijo areia e beijo cinzas.

Pedras. Pedras no bolso. Tudo invisível, tudo imperceptível guardado atrás dos olhos. Estou partindo aos poucos. Não consigo racionalizar, pois os passos parecem ter vindo antes mesmo de qualquer plano. Cada dia tomo mais um.

Nem todos os suicidas querem ajuda.